Corrida para a Prefeitura de Curitiba

Opinião

Como falácias sustentam o controle social e a manipulação histórica

Entenda como falácias e manipulação sustentam o controle social e aprenda a identificar perigos.Entenda como falácias e manipulação sustentam o controle social e aprenda a identificar perigos.
Vinícius Sgarbe
/
Adobe Firefly
Maku de Almeida

<span class="abre-texto">Sempre houve manipulação</span>. As mentiras atravessam os milênios da existência da nossa espécie e seguem poderosas como forma sutil de controle. O fator que altera a abrangência do seu poder é a rapidez com a qual os mecanismos de manipulação são transmitidos de uma pessoa para outra. Este fluxo está cada vez mais acelerado.

Examinando a história, encontramos absurdos perpetrados com base nos mecanismos de manipulação. Dos inúmeros exemplos, cito uns poucos: a caça às bruxas, a Inquisição, a perseguição aos judeus, a escravização e, bem recentemente, a perseguição implacável aos cientistas e aos jornalistas.

O poder do controle depende da manipulação, para que muitos pensem, sintam e façam o que poucos desejam. A pessoa controlada tem pouco contato com a realidade (e mesmo este “pouco” será percebido através de uma lente de distorção). Ela tem baixa percepção das próprias necessidades e das necessidades reais das outras pessoas (suas necessidades e emoções serão definidas pelo controlador) e não utilizará suas capacidades intuitivas e lógicas, trafegando em definições manipuladas pelo controlador.

Do meu encolhido ponto de vista, o mais doloroso é ver a pessoa controlada não utilizando a dádiva da autonomia e da realização do próprio potencial. É como se da pessoa fosse extraída a própria conexão com a realidade e este vazio fosse substituído por comandos sutis e não tão sutis de controle.

Dois aspectos me inquietam: como e por que o manipulador seduz tantos? E o que mais me intriga: o que leva uma pessoa a obedecer cegamente aos comandos manipulativos?

Observando os manipuladores, podemos perceber a utilização sistemática e deliberada da falácia. E é algo muito antigo, tanto é que o primeiro a falar do assunto foi um filósofo grego, que viveu de 384 a 322 a.C., na sua obra De Sophisticis Elenchis (Refutações Sofísticas). Neste texto, ele descreveu 13 falácias. Outro filósofo, Arthur Schopenhauer (1788-1860), no seu livro A Arte de Ter Razão, descreve 38 estratégias para ganhar um debate de qualquer maneira. Seu livro pode ser considerado um manual para a utilização de abusos argumentativos.

Falácia é uma palavra originada do latim fallere. Significa enganar. Abrange argumentos incoerentes, sem fundamento, inválidos, falhos, mentirosos. A falácia pode ser considerada uma armadilha que faz parecer convincente uma informação sem nenhum contato objetivo com a realidade. Ao transitar por notificações e postagens em redes sociais, deparo-me muito frequentemente com a falácia lógica, evidenciada pela utilização manipulativa de linguagem inadequada e de argumentos falhos.

Conhecer as falácias pode nos proteger, uma vez que a pessoa controladora manipulativa as conhece e as utiliza deliberadamente, com propósito planejado.

Deem uma olhada em algumas falácias; muitas delas podemos identificar em uma rápida verificação nas notícias do dia:

  • Apelo à Ignorância (argumentum ad ignorantiam) – “Como os cientistas não provaram que determinado remédio não funciona, é porque funciona.”
  • Falso dilema – “Ou vota no Eurípedes ou o mal prevalecerá.”
  • Apelo à força (argumentum ad baculum) – A pessoa controlada fica sabendo das consequências desagradáveis caso discorde do controlador.
  • Apelo à Piedade (argumentum ad misericordiam) – A manipulação é feita através da utilização do estado fragilizado do controlado.
  • Apelo aos preconceitos – O controlador se utiliza da emoção para carregar com drama aspectos relacionados à crença ou moral do controlado.

E, para encerrar esta pequena amostra:

  • Ataques pessoais (argumentum ad hominem) – Ao invés de contra-argumentar, o manipulador ataca quem falou, agredindo o gênero, o caráter, a origem, a raça ou a religião da pessoa.

Natural que junto das falácias estão as violências, os constrangimentos, as ameaças e a semeadura do medo.

Vamos ao outro lado deste fenômeno: o que faz a pessoa engolir sem pensar argumentos, ameaças e visões assombrosas de um futuro distópico?

A obediência é o fator primordial, do qual derivam todos os outros comportamentos que mantêm uma pessoa sob controle de outra. A pessoa controlada é treinada, desde a infância, a não contestar as “verdades” dos pais, professores, religiosos. É muito raro que, no lugar da imposição, aconteça o estímulo ao pensar autônomo.

Derivados desta subserviência crônica são a tolerância e o conformismo. Estes se sustentam com a não qualificação das raras objeções. Afinal, quem controla sabe mais do que quem é controlado, a ponto de a pessoa controlada perder contato com seus sentimentos e temores, e acreditar piamente em mentiras flagrantes.

Junto com esta conformação ao controlador, a pessoa controlada se volta contra aqueles que desmascaram, protestam ou apontam. Apontar para a realidade – “O rei está nu!” – faz a turba se voltar contra quem apontou, mesmo que enxergue a nudez. Pois a pessoa controlada duvida de si mesma. O tempo todo. Ao não entender, atribui a si mesma a falta de inteligência suficiente. Quando pensa em recusar o comando, julga-se preguiçosa e, quando um pouco de consciência se avizinha, vê-se fraca e incapaz de movimentar-se por si mesma.

Uma missão que se faz fundamental é ampliar a consciência, manter o olhar atento para qualificar a realidade e atrair, com gentileza, as pessoas controladas para a lucidez. Hora de fazer isso aos poucos, cada um na sua bolha, com convites emocionalmente educados para analisar, verificar, fundamentar, dialogar, olhar em volta. Talvez não com a velocidade necessária, mas poderemos fazer uma grande corrente de combate às falácias.

Última atualização
27/8/2024 11:29
Maku de Almeida
Analista transacional. É a colunista decana deste veículo.

Brasil bate recorde na geração de energia eólica em novembro de 2024

Brasil bate recorde na geração de energia eólica em novembro de 2024

Redação Cidade Capital
10/12/2024 10:21

O Brasil atingiu dois recordes consecutivos na geração de energia eólica em novembro deste ano. No dia 3, a produção média horária alcançou 23.699 megawatts médios (MWmed). Já no dia 4, foi registrado o maior volume diário, com 18.976 MWmed. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (9) pelo Ministério de Minas e Energia (MME).

Conforme a pasta, "os resultados destacam o avanço da energia eólica como uma fonte essencial para a matriz energética do país", confirmando o papel dessa tecnologia no fornecimento sustentável de energia.

Filme ‘Ainda estou aqui’ recebe indicação ao Globo de Ouro

Filme ‘Ainda estou aqui’ recebe indicação ao Globo de Ouro

Redação Cidade Capital
10/12/2024 10:02

O filme Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, foi indicado ao prêmio Globo de Ouro na categoria de melhor filme de língua estrangeira. A atriz Fernanda Torres também foi indicada a melhor atriz junto com Tilda Swinton, Kate Winslet, Angelina Jolie e Nicole Kidman

Ainda Estou Aqui narra a trajetória da família Paiva — a mãe, Eunice, e os cinco filhos — após o desaparecimento do deputado Rubens Paiva, preso, torturado e morto pela ditadura militar brasileira. 

Opinião

Como falácias sustentam o controle social e a manipulação histórica

Entenda como falácias e manipulação sustentam o controle social e aprenda a identificar perigos.Entenda como falácias e manipulação sustentam o controle social e aprenda a identificar perigos.
Vinícius Sgarbe
/
Adobe Firefly
Maku de Almeida
Analista transacional. É a colunista decana deste veículo.
27/8/2024 11:28
Maku de Almeida

<span class="abre-texto">Sempre houve manipulação</span>. As mentiras atravessam os milênios da existência da nossa espécie e seguem poderosas como forma sutil de controle. O fator que altera a abrangência do seu poder é a rapidez com a qual os mecanismos de manipulação são transmitidos de uma pessoa para outra. Este fluxo está cada vez mais acelerado.

Examinando a história, encontramos absurdos perpetrados com base nos mecanismos de manipulação. Dos inúmeros exemplos, cito uns poucos: a caça às bruxas, a Inquisição, a perseguição aos judeus, a escravização e, bem recentemente, a perseguição implacável aos cientistas e aos jornalistas.

O poder do controle depende da manipulação, para que muitos pensem, sintam e façam o que poucos desejam. A pessoa controlada tem pouco contato com a realidade (e mesmo este “pouco” será percebido através de uma lente de distorção). Ela tem baixa percepção das próprias necessidades e das necessidades reais das outras pessoas (suas necessidades e emoções serão definidas pelo controlador) e não utilizará suas capacidades intuitivas e lógicas, trafegando em definições manipuladas pelo controlador.

Do meu encolhido ponto de vista, o mais doloroso é ver a pessoa controlada não utilizando a dádiva da autonomia e da realização do próprio potencial. É como se da pessoa fosse extraída a própria conexão com a realidade e este vazio fosse substituído por comandos sutis e não tão sutis de controle.

Dois aspectos me inquietam: como e por que o manipulador seduz tantos? E o que mais me intriga: o que leva uma pessoa a obedecer cegamente aos comandos manipulativos?

Observando os manipuladores, podemos perceber a utilização sistemática e deliberada da falácia. E é algo muito antigo, tanto é que o primeiro a falar do assunto foi um filósofo grego, que viveu de 384 a 322 a.C., na sua obra De Sophisticis Elenchis (Refutações Sofísticas). Neste texto, ele descreveu 13 falácias. Outro filósofo, Arthur Schopenhauer (1788-1860), no seu livro A Arte de Ter Razão, descreve 38 estratégias para ganhar um debate de qualquer maneira. Seu livro pode ser considerado um manual para a utilização de abusos argumentativos.

Falácia é uma palavra originada do latim fallere. Significa enganar. Abrange argumentos incoerentes, sem fundamento, inválidos, falhos, mentirosos. A falácia pode ser considerada uma armadilha que faz parecer convincente uma informação sem nenhum contato objetivo com a realidade. Ao transitar por notificações e postagens em redes sociais, deparo-me muito frequentemente com a falácia lógica, evidenciada pela utilização manipulativa de linguagem inadequada e de argumentos falhos.

Conhecer as falácias pode nos proteger, uma vez que a pessoa controladora manipulativa as conhece e as utiliza deliberadamente, com propósito planejado.

Deem uma olhada em algumas falácias; muitas delas podemos identificar em uma rápida verificação nas notícias do dia:

  • Apelo à Ignorância (argumentum ad ignorantiam) – “Como os cientistas não provaram que determinado remédio não funciona, é porque funciona.”
  • Falso dilema – “Ou vota no Eurípedes ou o mal prevalecerá.”
  • Apelo à força (argumentum ad baculum) – A pessoa controlada fica sabendo das consequências desagradáveis caso discorde do controlador.
  • Apelo à Piedade (argumentum ad misericordiam) – A manipulação é feita através da utilização do estado fragilizado do controlado.
  • Apelo aos preconceitos – O controlador se utiliza da emoção para carregar com drama aspectos relacionados à crença ou moral do controlado.

E, para encerrar esta pequena amostra:

  • Ataques pessoais (argumentum ad hominem) – Ao invés de contra-argumentar, o manipulador ataca quem falou, agredindo o gênero, o caráter, a origem, a raça ou a religião da pessoa.

Natural que junto das falácias estão as violências, os constrangimentos, as ameaças e a semeadura do medo.

Vamos ao outro lado deste fenômeno: o que faz a pessoa engolir sem pensar argumentos, ameaças e visões assombrosas de um futuro distópico?

A obediência é o fator primordial, do qual derivam todos os outros comportamentos que mantêm uma pessoa sob controle de outra. A pessoa controlada é treinada, desde a infância, a não contestar as “verdades” dos pais, professores, religiosos. É muito raro que, no lugar da imposição, aconteça o estímulo ao pensar autônomo.

Derivados desta subserviência crônica são a tolerância e o conformismo. Estes se sustentam com a não qualificação das raras objeções. Afinal, quem controla sabe mais do que quem é controlado, a ponto de a pessoa controlada perder contato com seus sentimentos e temores, e acreditar piamente em mentiras flagrantes.

Junto com esta conformação ao controlador, a pessoa controlada se volta contra aqueles que desmascaram, protestam ou apontam. Apontar para a realidade – “O rei está nu!” – faz a turba se voltar contra quem apontou, mesmo que enxergue a nudez. Pois a pessoa controlada duvida de si mesma. O tempo todo. Ao não entender, atribui a si mesma a falta de inteligência suficiente. Quando pensa em recusar o comando, julga-se preguiçosa e, quando um pouco de consciência se avizinha, vê-se fraca e incapaz de movimentar-se por si mesma.

Uma missão que se faz fundamental é ampliar a consciência, manter o olhar atento para qualificar a realidade e atrair, com gentileza, as pessoas controladas para a lucidez. Hora de fazer isso aos poucos, cada um na sua bolha, com convites emocionalmente educados para analisar, verificar, fundamentar, dialogar, olhar em volta. Talvez não com a velocidade necessária, mas poderemos fazer uma grande corrente de combate às falácias.

Maku de Almeida
Analista transacional. É a colunista decana deste veículo.
Última atualização
27/8/2024 11:29

Brasil bate recorde na geração de energia eólica em novembro de 2024

Redação Cidade Capital
10/12/2024 10:21

O Brasil atingiu dois recordes consecutivos na geração de energia eólica em novembro deste ano. No dia 3, a produção média horária alcançou 23.699 megawatts médios (MWmed). Já no dia 4, foi registrado o maior volume diário, com 18.976 MWmed. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (9) pelo Ministério de Minas e Energia (MME).

Conforme a pasta, "os resultados destacam o avanço da energia eólica como uma fonte essencial para a matriz energética do país", confirmando o papel dessa tecnologia no fornecimento sustentável de energia.

Filme ‘Ainda estou aqui’ recebe indicação ao Globo de Ouro

Redação Cidade Capital
10/12/2024 10:02

O filme Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles, foi indicado ao prêmio Globo de Ouro na categoria de melhor filme de língua estrangeira. A atriz Fernanda Torres também foi indicada a melhor atriz junto com Tilda Swinton, Kate Winslet, Angelina Jolie e Nicole Kidman

Ainda Estou Aqui narra a trajetória da família Paiva — a mãe, Eunice, e os cinco filhos — após o desaparecimento do deputado Rubens Paiva, preso, torturado e morto pela ditadura militar brasileira.